A palavra "moderno" é viscosa. De um lado, tem ela um sentido bom. Assim, quando se fala da astronomia moderna, indica-se o acervo dos conhecimentos do passado acrescidos e retificados pelo imenso tesouro de aquisições devidos à investigação contemporânea. Todo este cabedal resulta do impulso vindo das gerações anteriores, o qual nos trouxe ao ápice presente, e com nosso esforço ruma para ápices sempre mais altos. Uma tal modernidade só pode ser bem vista pela Igreja. E, nesta perspectiva, a atualização de alguns tantos aspectos secundários e contingentes da vida da Igreja pode ser um bem.
Mas a palavra "moderno" tem também outro sentido, e este é péssimo. Segundo tal sentido, a moça de mini-saia é mais moderna que a de saia de comprimento normal. A seminua seria mais moderna que a de mini-saia, e assim por diante. Em arte, quanto mais extravagante, tanto mais "moderno". Noutra ordem de idéias, o socialista "moderado" se considera moderno em face do anti-socialista. O socialista de extrema esquerda se gaba de moderno diante do "moderado", e o comunista se considera arqui-moderno, isto é, despreza como fósseis os socialistas de todas as gamas anteriores. E assim poderíamos multiplicar os exemplos.
Em última análise, "moderno" é, neste sentido, algo cuja plenitude, cujo nec plus ultra está no delírio e no comunismo. Assim, se a Igreja deve ajustar-se a este segundo sentido de modernidade, Ela renuncia implicitamente a ser Ela mesma.
Bramindo por um ambígua modernização, propondo de cambulhada coisas excelentes, coisas discutíveis e coisas péssimas, e fazendo em geral das excelentes e das discutíveis pretexto para as péssimas, esse espírito de falsa modernidade começou a se manifestar em alguns movimentos de si excelentes.
Fonte: "Como ruiu a pirâmide de Quéops?", Folha S. Paulo, 8.02.1969
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