Sou tomista convicto. O aspecto da Filosofia pelo qual mais me interesso é a Filosofia da História. Em função deste encontro o ponto de junção entre os dois gêneros de atividade em que me venho dividindo ao longo de minha vida: o estudo e a ação. O ensaio em que condenso o essencial de meu pensamento explica o sentido de minha atuação ideológica. Trata-se do livro Revolução e Contra-Revolução.
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6 de agosto de 2017

Tendências "religiosas" modernas

O verdadeiro adversário está no panteísmo, em suas múltiplas formas. Arranhe-se qualquer sistema filosófico com ares de novo, qualquer forma mais ou menos recente de "espiritualismo", e, logo abaixo do verniz, encontrar-se-á o panteísmo. O universo é divino, e a humanidade, parte integrante do universo, também é divina. A felicidade do homem consiste em tomar consciência de seu caráter divino, excitando dentro de si a sensação vivida da sua própria divindade, o que consegue por uma série de exercícios mentais ou fórmulas litúrgicas mais ou menos mágicas, cujas modalidades variam de sistema a sistema, e em geral - como de direito em toda a magia - são conhecidas somente por uns poucos iniciados. Esta manifestação das energias divinas no íntimo de nosso ser, além de nos prestar toda a sorte de serviços psíquicos interiores úteis e deleitosos, também é muito proveitosa para o próprio cosmos. Com efeito, quanto mais excitamos em nós as energias divinas, tanto mais elas se ativam nos outros seres. E, à medida em que se ativam nos outros seres, progride todo o universo cujo desenvolvimento consiste, em essência no desdobrar das energias divinas que se encontram neles mais ou menos como o vento no espaço.

Este sistema traz, evidentemente, a morte da inteligência. Se o homem quer conhecer Deus e comunicar-se com Ele, não deve estudar nem pensar. Basta-lhe conhecer os métodos aptos a suscitar nele a experiência sensível da presença e da ação das energias universais e divinas dentro de si mesmo.

Também a vontade perde sua razão de ser dentro deste sistema. Não há propriamente uma união com a divindade por meio do esforço da vontade aplicada em praticar o bem e evitar o mal. Basta que o homem consiga despertar dentro de si por meio de métodos adequados a sensação experimental de que seu ser está naturalmente impregnado de forças divinas; o que aliás não é tão difícil pois todo o iniciado conhece tais métodos e nele se pode exercitar.

* * *

Está claro que nada disto teria capacidade de sedução, nem encanto, se não se envolvesse nos véus do mistério. Assim, a magia ressurrecta do século XX inventou não só vocábulos mas vocabulários inteiros, novos e complicados, todo um sistema literário cheio de figuras esfumaçadas e vistosas, em que estas afirmações fundamentais, variáveis aliás de escola para escola quase ao infinito em seus pormenores, vão sendo postas em circulação para uso da pobre Cristandade diluída, narcotizada e insensível do século XX.

Daí, evidentemente, uma imensa confusão de conceitos, de sistemas, de tendências. Durante todo o ano de 1951, esta confusão não fez senão perdurar e crescer.

* * *

Assim, fora das fronteiras da Igreja grassa uma religiosidade que em última análise é perfeitamente ímpia. E nos meios católicos? Ao mesmo tempo que formulamos a pergunta, contrai-se de tristeza nosso coração. Manda a verdade que se diga que também aí a confusão existe.

Fonte: "Sob o signo da confusão e da esperança", Catolicismo nº 13, janeiro de 1952

23 de outubro de 2016

Por que mitificar Lutero, o heresiarca?

Não compreendo como homens da Igreja contemporâneos, inclusive dos mais cultos, doutos ou ilustres, mitifiquem a figura de Lutero, o heresiarca, no empenho de favorecer uma aproximação ecumênica, de imediato com o protestantismo, e indiretamente com todas as religiões, escolas filosóficas, etc. Não discernem eles o perigo que a todos nos espreita, no fim deste caminho, ou seja, a formação, em escala mundial, de um sinistro supermercado de religiões, filosofias e sistemas de todas as ordens, em que a verdade e o erro se apresentarão fracionados, misturados e postos em balbúrdia? Ausente do mundo só estaria – se até lá se pudesse chegar – a verdade total; isto é, a fé católica apostólica romana, sem nódoa nem jaça.

Sobre Lutero – a quem caberia, sob certo aspecto, o papel de ponto de partida nessa caminhada para a balbúrdia total – alguns tópicos [de seus escritos] bem mostram o odor que sua figura revoltada espargiria nesse supermercado, ou melhor, nesse necrotério de religiões, de filosofias, e do próprio pensamento humano.

Fonte: "Lutero pensa que é divino!", Folha de S. Paulo, 10.01.1984

24 de novembro de 2015

Paz, paz... mas que paz?

“Opus justitiae pax”: a paz é fruto da justiça.

A respeito de paz, há duas atitudes doutrinárias inteiramente diversas, que, infelizmente, o público costuma confundir:

1) a posição da Igreja Católica, que considera a paz como um bem inestimável mas admite a guerra em certos casos como um direito e em certos casos até como um dever sagrado;

2) a posição dos pacifistas extremos que consideram a guerra como um mal insuportável, por isso mesmo a paz como um bem que a qualquer preço se deve conservar. (...)

[Sobre] a questão da legitimidade da guerra, demos dois exemplos clássicos. Um é o da legítima defesa. O outro é o da guerra sagrada. No caso da legítima defesa, a guerra é um direito incontestável. No caso da guerra sagrada, não existe apenas o direito, existe um dever.

Estes os princípios da doutrina católica. Eles se sintetizam todos em um pensamento de Santo Agostinho. Diz o grande doutor que, ao contrário do que já no seu tempo era uma impressão geral, o mais grave dos males da guerra não está na mutilação ou na destruição de corpos perecíveis que, dias mais dias menos, hão de se corromper dentro das entranhas da terra, na sombra humilde de uma sepultura. O grande mal da guerra, mas maior do que todos os males, está na ofensa que Deus recebe com ela. Porque não se pode conceber um conflito em que ambas as partes sejam inteiramente inocentes. Ao menos uma delas há de ser culpada. E a ofensa que Deus recebe com a injustiça do agressor é, no fundo, o maior mal que uma guerra pode causar.

Ora, se a ofensa que Deus recebe com uma agressão injusta é grande, que dizer-se da ofensa por Ele recebida com a vitória do agressor e com a transformação da injustiça em uma ordem de coisas estável e duradoura que se constitua em permanente injúria à Majestade Divina? A paz que tivesse como fruto evitar a guerra e permitir a pacífica e incruenta consumação da injustiça, quando esta poderia ser evitada pela reação das armas, essa paz seria uma suma injustiça aos olhos de Deus, e os restos do povo avassalado, porém inconformável com a desgraça, clamariam vingança com a mesma veemência patética com que clamou por vingança o sangue inocente de Abel.

Assim, pois, imaginar como imaginam à outrance que é preciso a todo custo evitar a guerra, ainda que a paz assim obtida signifique o desaparecimento de povos inteiros, e a injustiça campeando como supremo princípio da ordem internacional, não é outra coisa senão opor à doutrina católica o desmentido mais formal que se lhe possa opor. (...)

Ninguém tem dificuldade em compreender que a Igreja tenha pregado diversas cruzadas contra o Islã, quando este ameaçou o Santo Sepulcro de Nosso Senhor Jesus Cristo, e a liberdade religiosa das populações cristãs ali existentes.

Fonte: "A posição do Vaticano", Legionário, nº 368, 1.10.1939

4 de agosto de 2015

O Nazismo, o Comunismo e os católicos transviados pela confusão

Em 1918 o sopro de espírito revolucionário varreu a Europa com singular violência. Deu-se o imenso estrondo do desabamento do czarismo, e se implantou o comunismo na Rússia. Toda a vida intelectual e social se secionou ainda mais do passado. No ocidente, a hegemonia começou a se deslocar cada vez mais, da Europa tradicional para os Estados Unidos niveladores.

Em meio de todo esse desabamento, que evidenciava cada vez mais o próximo término da civilização cristã como tal, uma salutar reação se produziu. Muitos espíritos percebiam por fim para que abismos caminhava o mundo, e quais os guias que o levavam para o abismo. Como escreveu Pio XI, um sopro universal do Espírito Santo orientava para a igreja os espíritos transviados. Em plena hecatombe da civilização cristã, a Igreja de Deus começava a florir novamente, produzindo rebentos que atestavam iniludivelmente sua eterna pujança. O movimento católico se organizava por toda a Europa. Eram legiões os moços que, desgostosos do curso das coisas, abriam os olhos para a Verdade Revelada, e almejavam de todo coração o triunfo da civilização cristã. As obras sociais católicas, a imprensa católica, o rádio católico, a ação política dos católicos triunfavam por toda parte. Assim, na Alemanha, na Áustria, na Espanha, na Itália, na França, no Brasil, na Holanda, na Bélgica, os êxitos eleitorais dos católicos eram cada vez mais estrondosos. E quanto mais crescia o perigo comunista, tanto mais se acendia o ardor da reação católica. A certas almas, Deus atrai ao Céu fazendo—lhes ver o inferno. Foi desta terapêutica que Ele se serviu com o mundo ocidental, permitindo que se lhe patenteasse em toda a hediondez a figura dos tormentos em que o comunismo mantinha a Rússia, o México e mais tarde a Espanha. Não há tormento maior do que esse de um povo a que se arranco dia a dia uma tradição, um hábito, um símbolo. É um esquartejamento terrível da alma, a que estavam expostos a pouco e pouco todos os povos cristãos.

* * *

Sempre que o demônio está na iminência de perder uma partida, sua grande arma é a confusão. Utilizou-a ainda desta vez. A História talvez diga, algum dia, em que antros o plano tenebroso se forjou. Mas o fato é que para atender aos anseios das massas sedentas de civilização cristã, apareceu na Alemanha um partido, logo copiado em outros lugares, que se propunha a implantar um novo mundo cristão. À primeira vista, nada mais simpático do que o nazismo, movimento místico-heróico, propugnador das tradições da Alemanha cristã e medieval, contra a dissolução demagógica e corruptora da propaganda bolchevista.

Os termos meramente negativos da doutrina nacional-socialista correspondiam em vários pontos ao que sentia de mais vivo a consciência cristã, indignada com o enfraquecimento do princípio de autoridade, da ordem, da moral e do direito.

Mas se se atentasse para o lado positivo dessa ideologia, lado que só aos poucos a maquiavélica propaganda parda revelava aos “iniciados”, que terrível decepção! Ideologia confusa, impregnada de evolucionismo e materialismo histórico, saturada de influências filosóficas e teológicas pagãs, programa político e econômico radical e caracteristicamente socialista, intoleráveis preconceitos racistas. Em uma palavra, por detrás dos bramidos anticomunistas do nazismo, era o próprio comunismo que se pretendia instaurar. Um comunismo ardiloso, de máscara cristã. Um comunismo mil vezes pior, porque mobilizava contra a Igreja as armas satânicas da astúcia, em lugar das armas impotentes da força bruta. Um comunismo que começava por empolgar os espíritos por algumas verdades, punha-os em delírio sob pretexto de entusiasmo por essas verdades, e os atirava em seguida aos erros mais terríveis. Um comunismo, portanto, que significava, não a obliteração dos maus, mas dos bons, a mais terrível máquina de perdição e de mistificação que o demônio tenha engendrado ao longo da História.

* * *

Tal é o peso da verdade, tão duro é o fardo do bem, que infelizmente muitos espíritos, embora sinceramente católicos, se deixaram transviar pela manobra. Não tinham aquela fome e sede de justiça, que é a raiz da santa intransigência. Não tinham aquele apetite de Catolicismo pleno, que os faria rejeitar como elemento impuro qualquer liga com os fermentos do século. As coisas muito acentuadamente católicas, declaradamente católicas, exclusivamente católicas, lhes pesavam como o sol fere a vista das aves noturnas. Preferiam as formas pálidas, diluídas, indiretas, de irradiação católica, como os mochos preferem a luz da lua. E se entregaram de corpo e alma a essas tendências de caráter nitidamente anticatólico. Na Itália, como na Alemanha, como em outros lugares, uma coorte de ingênuos, de desavisados, de pessoas entretanto bem intencionadas, se deixou embair e arrastar de roldão com facínoras e aventureiros de toda sorte. E só Deus sabe com que furor, com que iracúndia, com que abundância de ameaças se atiravam contra os irmãos de crença que se permitiam o luxo de ser mais penetrantes, mais perspicazes, mais enérgicos na defesa da Fé.

Fonte: "A grande experiência de dez anos de luta", Catolicismo nº 173, maio de 1965

14 de junho de 2015

Jesus Cristo e sua Igreja serão sempre uma pedra de contradição entre os povos

Disse muito bem Santo Agostinho que a Igreja Católica não pede aos seus adversários outra coisa senão o direito de não ser julgada sem antes ser conhecida. Muitos espíritos superiores deduzem daí que se deve supor que todas as pessoas que condenam a Igreja, só o fazem porque não a conhecem. Esta afirmação, verdadeira em determinados casos particulares, se generalizada passa a ser absolutamente ridícula. Jesus Cristo e sua Igreja serão sempre uma pedra de contradição entre os povos, e o mesmo conhecimento exato do Catolicismo, que em muitos gera o amor, em outros causa ódio. Se a Igreja deseja sempre ser conhecida antes de julgada, fá-lo não só para evitar os efeitos da ignorância de alguns, mas ainda para que fique bem patente o cunho satânico do ódio de outros.

Assim, a franqueza apostólica foi sempre uma regra fundamental de todo proselitismo católico. Excetuadas certas situações especialíssimas, o interesse da Igreja consiste em fazer com que seus arautos a proclamem sem desfiguramentos, sem diluições, sem covardes adaptações ao espírito da época.

Se em todos os tempos esta foi a regra, hoje, mais do que nunca esta atitude se impõe. Ela já não constitui só um ato de elementar coerência com nossos princípios, mas uma medida de soberana sabedoria estratégica. Sabiam-no todos os maníacos de “adaptações ao sabor da época”: vivemos em uma era de radicalismo, e a adaptação de nossos processos de propaganda à época consiste em mostrar o Catolicismo em sua expressão mais radical, despido das sacrílegas maquillages com que muita gente gostaria de desfigurar a sua fisionomia.

Inspiram, pois, compaixão os espíritos insignificantes que julgam, à moda dos mais rançosos “católicões” do século passado, que o único meio de fazer circular as idéias católicas consiste em apresentá-las diluídas em dinamizações tanto melhores quanto mais tênues.

Fonte: "Arautos do Divino Rei", Legionário, nº 478, 9.11.1941

12 de junho de 2015

Distinção harmônica entre Igreja e Estado

Um dos princípios fundamentais da Teologia e do Direito Canônico consiste na distinção harmônica entre a Igreja e o Estado.

Sendo o homem criatura de Deus, suas relações com o Criador são absolutamente fundamentais. Por isso, jamais pode o Estado legitimamente descurar da religião.

Antes de Jesus Cristo, a religião constituía um assunto de Estado, e havia uma como que fusão entre a autoridade civil e a religiosa. Com freqüência, chegava-se até a atribuir à dinastia reinante uma origem divina. Ou então se divinizavam os chefes de estado, ainda em vida ou depois de mortos. Por vezes, altas funções de Estado conferiam ipso facto atribuições sacerdotais a seus titulares. Nos países em que existia uma classe sacerdotal, os membros dela eram funcionários públicos direta ou indiretamente sujeitos ao chefe de Estado. De tal maneira a religião, a classe sacerdotal e o Estado se interpenetravam, que constituía crença geral haver em alguma região indefinida batalhas entre deuses de países inimigos, quando as tropas destes se entrechocavam na terra. A vitória ou derrota corriam por conta – pelo menos em parte – da força e da dedicação, ou então da fraqueza e da displicência dos deuses. Não raras vezes, em caso de derrota, estes eram “punidos” pelas multidões enfurecidas. Tais eram as aberrações da idolatria e da superstição.

Nosso Senhor Jesus Cristo instituiu a Igreja com caráter diverso. Ele ensinou o culto a um Deus único, a ser igualmente adorado por todos os povos. A esse Deus único corresponde a existência de uma Igreja una, com um só chefe visível, o Papa, sediado em Roma. Com esta medida, Ele separou os dois poderes, porém, de maneira a que cooperassem intimamente, cada qual em sua esfera, para a glória de Deus e o bem comum dos povos.

O fim dessa Igreja universal é extra-terreno. Sua jurisdição é espiritual. Seu magistério também. Cabe-lhe ensinar e explanar a Revelação contida na Bíblia e na Tradição.

Segundo o disposto por Jesus Cristo, o Estado deve reconhecer a Igreja, respeitar-lhe os direitos originários da missão que seu Divino Fundador lhe deu, e apoiá-la com os meios de ação específicos dele, para que ela realize sua missão espiritual. Contudo, não toca ao Estado qualquer ingerência nos assuntos especificamente religiosos e eclesiásticos.

Mas, ainda segundo o que foi instituído por Jesus Cristo, também o Estado tem uma esfera de ação própria, e nesta não compete à Igreja o direito de imiscuir-se. Pelo contrário, deve a Igreja fazer quanto nela está para ajudar o Poder público temporal.

Com efeito, a cada Estado cabe promover o bem comum temporal (isto é, terreno) do respectivo povo. Assim, tudo quanto diz respeito à independência, prosperidade, bem-estar e progresso de um País está posto sob a ação legislativa, executiva e judiciária do Estado.

Exceto ratione peccati (isto é, quando algo na ordem civil viola a lei de Deus, como é o caso do divórcio, da limitação da natalidade, da laicidade escolar etc.) à Igreja não cabe imiscuir-se em assuntos temporais.

Como se vê, a boa harmonia dos poderes espiritual e temporal se baseia no respeito dessa delimitação de esferas por parte de cada um deles.

Fonte: Sou Católico: posso ser contra a Reforma Agrária?, 1981, pp. 67-68

8 de junho de 2015

Esta é nossa finalidade, nosso grande ideal, a civilização católica

* Engana-se singularmente quem supuser que a ação da Igreja sobre os homens é meramente individual, e que ela forma pessoas, não povos, nem culturas, nem civilizações.

* Com efeito, Deus criou o homem naturalmente sociável, e quis que os homens, em sociedade, trabalhassem uns pela santificação dos outros. Por isto, também, criou-nos influenciáveis. Temos todos, pela própria pressão do instinto de sociabilidade, a tendência a comunicar em certa medida nossas idéias aos outros, e, em certa medida, em receber a influência deles. Isto se pode afirmar nas relações de indivíduo a indivíduo, e do indivíduo com a sociedade. Os ambientes, as leis, as Instituições em que vivemos exercem efeito sobre nós, têm sobre nós uma ação pedagógica.

* Resistir inteiramente a este ambiente, cuja ação ideológica nos penetra até por osmose e como que pela pele, é obra de alta e árdua virtude. E por isto os primitivos cristãos não foram mais admiráveis enfrentando as feras do Coliseu, do que mantendo íntegro seu espírito católico embora vivessem no seio de uma sociedade pagã.

Assim, a cultura e a civilização são fortíssimos meios para agir sobre as almas. Agir para a sua ruína, quando a cultura e a civilização são pagãs. Para a sua edificação e sua salvação, quando são católicas.

Como, pois, pode a Igreja desinteressar-se em produzir uma cultura e uma civilização, contentando-se em agir sobre cada alma a título meramente individual?

* Aliás, toda a alma sobre a qual a Igreja age, e que corresponde generosamente a tal ação, é como que um foco ou uma semente desta civilização, que ela expande ativa e energicamente em torno de si. A virtude transparece e contagia. Contagiando, propaga-se. Agindo e propagando-se tende a transformar-se em cultura e civilização católica.

* Como vemos, o próprio da Igreja é de produzir uma cultura e uma civilização cristã. É de produzir todos os seus frutos numa atmosfera social plenamente católica. O católico deve aspirar a uma civilização católica como o homem encarcerado num subterrâneo deseja o ar livre, e o pássaro aprisionado anseia por recuperar os espaços infinitos do Céu.

E é esta nossa finalidade, o nosso grande ideal. Caminhamos para a civilização católica que poderá nascer dos escombros do mundo de hoje, como dos escombros do mundo romano nasceu a civilização medieval. Caminhamos para a conquista deste ideal, com a coragem, a perseverança, a resolução de enfrentar e vencer todos os obstáculos, com que os cruzados marcharam para Jerusalém. Porque, se nossos maiores souberam morrer para reconquistar o sepulcro de Cristo, como não queremos nós – filhos da Igreja como eles – lutar e morrer para restaurar algo que vale infinitamente mais do que o preciosíssimo Sepulcro do Salvador, isto é, seu reinado sobre as almas e as sociedades, que Ele criou e salvou para O amarem eternamente?

Fonte: "A Cruzada do Século XX", nº 1, Janeiro 1951

27 de maio de 2015

Quid est veritas?

Ainda que não tivéssemos as narrativas evangélicas a nos mostrar eloqüentemente a sinuosidade de inteligência e de caráter de Pilatos, poderíamos fazer uma idéia bastante segura de sua mentalidade através do seu imortal "quid est veritas?"

Abstraindo da feição religiosa do diálogo entre Nosso Senhor e Pôncio Pilatos, não podemos deixar de considerar a beleza histórica da cena rapidamente relatada pelos Evangelhos.

O diálogo entre o pretor romano e a inocente vítima de sua covardia representa o diálogo entre uma época que se extinguia, nos últimos lampejos de uma civilização decadente, e outra época que nascia no sangue e na aparente infâmia da Cruz, mas que, dentro de alguns séculos, desabrocharia numa aurora suave de doce vitória, trazendo aos homens desvairados o doce lenitivo de uma doutrina de salvação.

O pretor romano é pintado ao vivo pelo "quid est veritas?" com que quis confundir a Nosso Senhor.

O romano civilizado, cujos sentidos já se haviam maravilhado em todos os deleites de uma sociedade que vivia para o prazer, o romano instruído, cuja inteligência inquieta havia percorrido ansiosamente todos os sistemas filosóficos que cientistas medíocres expunham no mercado literário de Roma, tal qual os modistas quando expunham os últimos tecidos exóticos chegados do Oriente, o homem vencido pelo prazer, incapaz de se desvencilhar de sua sensualidade, cuja personalidade soçobrava num mare-magno de doutrinas confusas e imperfeitas, no relaxamento de seus sentidos insatisfeitos, o pobre romano, triste vítima da pestilência de uma época prestes a morrer, exala através do "quid est veritas?" todo o azedume de quem sente ao redor de si somente as ruínas nascidas dos próprios desvarios de sua razão e de seus sentidos.

E o humilde Nazareno, que passara uma vida de privações e de abnegação, e que, jovem, belo e formoso, iria morrer pelos seus algozes, sustentando uma verdade de que se dizia a encarnação, representa exatamente o pólo oposto.

É o contraste magnífico entre o abismo cheio de umidade, de trevas e de frio, e o cume elevadíssimo de uma montanha cheia de luz, de harmonia e de beleza.

Não venceu o pretor orgulhoso. O sibarita cético que, entre ansioso e indiferente, parecia ter procurado a verdade infrutiferamente, foi estrondosamente vencido pela vítima humilde, que regou com sangue suas próprias doutrinas, e substituiu o sistema de dúvida e negação de Pilatos por um sistema de afirmação e construção que, durante tantos séculos, a humanidade civilizada admirou!

E o dito do pretor cético foi relembrado pela Igreja, durante séculos inteiros, aos povos prosternados nas góticas catedrais, por ocasião da Semana Santa, como o brado de insensatez e desespero de uma civilização prestes a naufragar. O "quid est veritas?" de Pilatos, pronunciado na agonia da civilização romana, equivale ao "vicisti tandem, Galilaeu, vicisti", que Juliano, o Apóstata, legou ao mundo ao morrer, como último desabafo de um coração revoltado.

São ambos gritos de revolta e de desespero, diante da vitória da Verdade, que vai surgir.

Fonte: "Quid est veritas?", Legionário, nº 64, 24.08.1930

30 de abril de 2015

"Moderno": um conceito viscoso

A palavra "moderno" é viscosa. De um lado, tem ela um sentido bom. Assim, quando se fala da astronomia moderna, indica-se o acervo dos conhecimentos do passado acrescidos e retificados pelo imenso tesouro de aquisições devidos à investigação contemporânea. Todo este cabedal resulta do impulso vindo das gerações anteriores, o qual nos trouxe ao ápice presente, e com nosso esforço ruma para ápices sempre mais altos. Uma tal modernidade só pode ser bem vista pela Igreja. E, nesta perspectiva, a atualização de alguns tantos aspectos secundários e contingentes da vida da Igreja pode ser um bem.

Mas a palavra "moderno" tem também outro sentido, e este é péssimo. Segundo tal sentido, a moça de mini-saia é mais moderna que a de saia de comprimento normal. A seminua seria mais moderna que a de mini-saia, e assim por diante. Em arte, quanto mais extravagante, tanto mais "moderno". Noutra ordem de idéias, o socialista "moderado" se considera moderno em face do anti-socialista. O socialista de extrema esquerda se gaba de moderno diante do "moderado", e o comunista se considera arqui-moderno, isto é, despreza como fósseis os socialistas de todas as gamas anteriores. E assim poderíamos multiplicar os exemplos.

Em última análise, "moderno" é, neste sentido, algo cuja plenitude, cujo nec plus ultra está no delírio e no comunismo. Assim, se a Igreja deve ajustar-se a este segundo sentido de modernidade, Ela renuncia implicitamente a ser Ela mesma.

Bramindo por um ambígua modernização, propondo de cambulhada coisas excelentes, coisas discutíveis e coisas péssimas, e fazendo em geral das excelentes e das discutíveis pretexto para as péssimas, esse espírito de falsa modernidade começou a se manifestar em alguns movimentos de si excelentes.

Fonte: "Como ruiu a pirâmide de Quéops?", Folha S. Paulo, 8.02.1969

24 de fevereiro de 2015

Católicos que combatem a Cidade Santa dentro de seus próprios muros

Entre as forças da Revolução, cumpre não omitir os católicos que professam a doutrina da Igreja mas estão dominados pelo espírito revolucionário. Mil vezes mais perigosos que os inimigos declarados, combatem a Cidade Santa dentro de seus próprios muros, e bem merecem o que deles disse Pio IX: “Embora os filhos do século sejam mais hábeis que os filhos da luz, seus ardis e suas violências teriam, sem dúvida, menor êxito se um grande número, entre aqueles que se intitulam católicos, não lhes estendesse mão amiga. Sim, infelizmente, há os que parecem querer caminhar de acordo com nossos inimigos, e se esforçam por estabelecer uma aliança entre a luz e as trevas, um acordo entre a justiça e a iniqüidade por meio dessas doutrinas que se chamam católicoliberais, as quais, apoiando-se sobre os mais perniciosos princípios, adulam o poder civil quando ele invade as coisas espirituais, e impulsionam as almas ao respeito, ou ao menos à tolerância das leis mais iníquas. Como se absolutamente não estivesse escrito que ninguém pode servir a dois senhores. São eles muito mais perigosos certamente e mais funestos do que os inimigos declarados, não só porque lhes secundam os esforços, talvez sem o perceberem, como também porque, mantendo-se no extremo limite das opiniões condenadas, tomam uma aparência de integridade e de doutrina irrepreensível, aliciando os imprudentes amigos de conciliações e enganando as pessoas honestas, que se revoltariam contra um erro declarado. Por isso, eles dividem os espíritos, rasgam a unidade e enfraquecem as forças que seria necessário reunir contra o inimigo” (Carta ao Presidente e membros do Círculo Santo Ambrósio, de Milão, de 6-III-1873, apud I Papi e la Gioventù, Editrice, A.V.E., Roma, 1944, p. 36).

Fonte: Revolução e Contra-revolução, parte I, Cap. VI, 5. D

16 de outubro de 2014

Quem ainda é católico na Igreja Católica?

Se desde sua fundação até nossos dias, a Igreja considerou com horror o nudismo e se, em nossos dias, entidades eclesiásticas [o toleram ou promovem], de duas uma:

1) ou a Moral católica mudou totalmente, e então a Igreja não é infalível nem divina;

2) ou essas entidades eclesiásticas adulteram o ensino da Igreja, e por si mesmas se excluem desta.

Ora, como a primeira hipótese é de todo em todo inaceitável, a segunda se impõe.

Não tenhamos medo de ver a verdade de frente. Este tema — do nudismo — levanta uma pergunta que vai muito além (...)

É absolutamente impossível que formas de rombuda agressão sexual se tenham generalizado tanto, sem que haja muitos diretores espirituais que concedam absolvição a pessoas que, por seu modo de trajar, não poderiam recebê-la. A eles, também a pergunta deve ser feita. — Se acreditam que a Moral da Igreja mudou, como ainda se dizem católicos? E se, permitem às suas penitentes [esse modo de trajar] com que direito se inculcam como padres católicos? (...)

Mas, dirá alguém, uma pessoa não peca contra a Fé por violar um desses Mandamentos (6º e 9º). Logo, minha argumentação é sem base.

Evidentemente, não digo que peca contra a Fé. Mas quem afirma, implícita ou explicitamente, que a Moral da Igreja mudou, este sim, peca contra a Fé.

E daí uma pergunta que, também a propósito da conduta face ao comunismo e de diversos outros assuntos, pode ser feita: quem ainda é católico apostólico romano dentro desse imenso magma de milhões de pessoas — cardeais, bispos, sacerdotes, religiosos e leigos — habitualmente tidos como membros da única e imperecível Igreja de Deus?

Fonte: Quem ainda é católico na Igreja Católica?, Folha de S. Paulo, 5.01.75

30 de julho de 2014

A esquerda perderá a batalha da popularidade

Se a esquerda for açodada na efetivação das reivindicações "populares" e niveladoras com que subiu ao poder; - se se mostrar abespinhada e ácida ao receber as críticas da oposição; - se for persecutória através do mesquinho casuísmo legislativo, da picuinha administrativa ou da devastação policialesca dos adversários, o Brasil se sentirá frustrado na sua apetência de um regime "bon enfant" de uma vida distendida e despreocupada. Num primeiro momento, distanciar-se-á então da esquerda. Depois ficará ressentido. E, por fim, furioso. A esquerda terá perdido a partida da popularidade.

Em outros termos, se os esquerdistas, ora tão influentes no Estado (Poderes 1, 2 e 3), na Publicidade (Poder 4) e na estrutura da Igreja (Poder 5), não compreenderem a presente avidez de distensão do povo brasileiro, deixarão de atrair e afundarão no isolamento. Falarão para multidões silenciosas no começo, e pouco depois agastadas.

Fonte: Cuidado com os pacatos, Folha de S. Paulo, 14.12.82

17 de julho de 2014

Ainda que a Igreja seja devastada pelos lobos da heresia...

Cumpramos o nosso dever. E se depois de termos feito todo o possível - a palavra “todo” significa tudo, mas absolutamente tudo, e não apenas “um pouco” ou “muito” - resignemo-nos diante da avalanche que vem. Porque ainda que pereçam o Brasil e o mundo inteiro, ainda que a própria Igreja seja devastada pelos lobos da heresia, ela é imortal. Nadará sobre as águas revoltas do dilúvio. E é de dentro de seu seio sagrado que sairão depois da tempestade, como Noé da Arca, os homens que hão de fundar a civilização de amanhã.

Fonte: Legionário, Meditação política em torno do Triunfo e da Paixão do Filho de Deus, 21.3.1937

16 de julho de 2014

Por que razão a Igreja abençoa as espadas?

Por que razão a Igreja abençoa a espada dos militares que, recebendo as dragonas do oficialato, se incorporam à alta direção das forças armadas? Por que timbra ela em dar às espadas, que são instrumentos de morte, uma bênção que é o penhor da proteção do Deus vivo? Porque a Igreja não vê na espada dos militares senão o baluarte da justiça. A espada do militar é, para a Igreja, não o instrumento com que se mata em guerra de conquista, mas o meio de defesa do direito lesado, da civilização agredida, da moral conspurcada. E se o próprio Salvador não relutou em empunhar o açoite com que flagelou vigorosamente os vendilhões do templo que conspurcavam os direitos de Deus, a Igreja não poderia deixar de abençoar as espadas com que o Estado arma seus paladinos, para a defesa dos direitos da Igreja, da Civilização e da Pátria.

Em outros termos, significa isto que a Igreja, a despeito das entranhas maternais que A movem em relação a todos os seus filhos, não reluta em abençoar a violência, desde que ela seja a santa violência da ordem contra a desordem, do bem agredido contra o mal agressor, da vítima prejudicada contra o causador do dano injusto. É necessário, evidentemente, que a violência só seja empregada quando todos os outros meios se esgotaram para restabelecer o direito lesado.

É necessário, além disto, que ela não exceda em virulência ao limite do estritamente indispensável para a defesa da Justiça. Estas duas ressalvas feitas, entretanto, o exercício da violência não constitui apenas um direito, mas deve, às vezes, constituir um imperioso dever.

Realmente, quando a espada da Justiça se deixa paralisar pela inércia, embora a civilização periclite, a Pátria corra risco e os direitos da Igreja sejam calcados aos pés, ela colabora por omissão com o mal contra o bem, com a anarquia contra a civilização, com o demônio contra Deus. Deserta de seu dever sagrado. Perde o direito ao respeito que merecia. E se transforma, de sublime instrumento de defesa, em inútil fonte de gastos inúteis, ou odioso meio de opressões.

Fonte: Benção de espadas, Legionário, nº 245, 23.5.1937

3 de julho de 2014

A impossível coexistência pacífica da Igreja com o comunismo

A coexistência pacífica da Igreja com o comunismo deve ser recusada pelos católicos:

1º argumento – A ordem temporal exerce uma ação formadora – ou deformadora – profunda sobre a alma dos povos e dos indivíduos. A Igreja não pode, pois, aceitar uma liberdade que implique em calar sobre os erros do regime comunista, criando no povo a impressão de que Ela não os condena.

2º argumento – Renunciando a ensinar os preceitos do Decálogo que fundamentam a propriedade privada (7º e 10º Mandamentos), a Igreja apresentaria uma imagem desfigurada do próprio Deus. O amor de Deus, a prática da virtude da justiça e o pleno desenvolvimento das faculdades do homem, e, portanto, a sua santificação, ficariam assim gravemente prejudicados.

3º argumento – A Igreja não pode aceitar o comunismo como um fato consumado e um “mal menor”.

Fonte: Acordo com o regime comunista – para a Igreja, esperança ou autodemolição?, p. 67

22 de abril de 2014

Se algum dia o Brasil for grande, selo-á para bem do mundo inteiro

Talvez não fosse ousado afirmar que Deus colocou os povos de sua eleição em panoramas adequados à realização dos grandes destinos a que os chama. E não há quem, viajando por nosso Brasil, não experimente a confusa impressão de que Deus destinou para teatro de grandes feitos esse País cujas montanhas trágicas e misteriosas penedias parecem convidar o homem às supremas afoitezas do heroísmo cristão, cujas verdejantes planícies parecem querer inspirar o surto de novas escolas artísticas e literárias, de novas formas e tipos de belezas, e na orla de cujo litoral os mares parecem cantar a glória futura de um dos maiores povos da Terra.

Quando nosso poeta cantava que "nossa terra tem palmeiras onde canta o sabiá, e que as aves que aqui gorjeiam não gorjeiam como lá", percebeu, talvez confusamente, que a Providência depositou na natureza brasileira a promessa de um porvir igual ao dos maiores povos da Terra.

E hoje, que o Brasil emerge de sua adolescência para a maturidade, e titubeia nas mãos da velha Europa o cetro da cultura cristã, que o totalitarismo quereria destruir, aos olhos de todos se patenteia que os países católicos da América são na realidade o grande celeiro da Igreja e da Civilização, o terreno fecundo onde poderão reflorir com brilho maior do que nunca as plantas que a barbárie devasta no velho mundo. A América inteira é uma constelação de povos irmãos. Nessa constelação, inútil é dizer que as dimensões materiais do Brasil são uma figura da magnitude de seu papel providencial.

Tempo houve em que a História do mundo se pode intitular Gesta Dei per Francos. Dia virá em que se escreverá Gesta Dei per brasilienses.

A missão providencial do Brasil consiste em crescer dentro de suas próprias fronteiras, em desdobrar aqui os esplendores de uma civilização genuinamente Católica, Apostólica, Romana, e em iluminar amorosamente todo o mundo com o facho desta grande luz, que será verdadeiramente o lumen Christi que a Igreja irradia. Nossa índole meiga e hospitaleira, a pluralidade das raças que aqui vivem em fraternal harmonia, o concurso providencial dos imigrantes que tão intimamente se inseriram na vida nacional, e mais do que tudo as normas do Santo Evangelho, jamais farão de nossos anseios de grandeza um pretexto para jacobinismos tacanhos, para racismos estultos, para imperialismos criminosos. Se algum dia o Brasil for grande, selo-á para bem do mundo inteiro.

"Sejam entre Vós os que governam como os que obedecem", diz o Redentor. O Brasil não será grande pela conquista, mas pela Fé; não será rico pelo dinheiro tanto quanto pela generosidade. Realmente, se soubermos ser fiéis à Roma dos Papas, poderá nossa cidade ser uma nova Jerusalém, de beleza perfeita, honra, glória e gáudio do mundo inteiro.

Aqui mesmo encontrais disto, Senhores, um formoso símbolo. Pela primeira vez arderá em uma cerimônia pública o incenso nacional. Pela primeira vez um órgão inteiramente nacional tem deliciado nossos ouvidos. Mas esse incenso queimará nos altares de uma Religião que é Universal, e esse órgão fará ecoar as melodias da Igreja na língua-mater de toda a cultura do mundo. Nada poderia dizer melhor do verdadeiro sentido de nosso nacionalismo, ou, posta de lado essa palavra tantas vezes mal empregada, de nosso patriotismo.

"Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus". Explorai, Senhores do Poder Temporal, as riquezas de nossa terra; estruturai segundo as máximas da Igreja, que são a essência da civilização cristã, todas as nossas instituições civis. Auxiliai quanto em Vós estiver, a Santa Igreja de Deus a que plasme a alma nacional na vida da graça, para a glória do céu. Fazei do Brasil uma pátria próspera, organizada e pujante, enquanto a Igreja fará do povo brasileiro um dos maiores povos da História. Na harmonia desta mesma obra está a predestinação de uma íntima cooperação entre dois poderes. Deus jamais é tão bem servido, quanto se César se porta como seu filho. E, Senhores, em nome dos católicos do Brasil, eu vo-lo afianço, César jamais é tão grande, como quanto é filho de Deus.

Nessa colaboração está o segredo de nosso progresso e nela vossa parte é verdadeiramente magnífica.

Trabalhai, senhores, trabalhai neste sentido. Tereis a cooperação entusiástica de todos os nossos recursos, de todos os nossos corações, de todo o nosso fervor. E quando algum dia Deus Vos chamar à vida eterna, tereis a suprema ventura de contemplar um Brasil imensamente grande e profundamente cristão, sobre o qual o Cristo do Corcovado, com seus braços abertos, poderá dizer aquilo que é o supremo título de glória de um povo cristão. Executai o programa de Governo que consiste em procurar antes o reino de Deus e sua justiça, que todas as coisas lhes serão dadas por acréscimo.

Em um Brasil imensamente rico, vereis florescer um povo imensamente rico, vereis florescer um povo imensamente grande, porque dele se poderá dizer:

Bem-aventurado este povo sóbrio e desapegado, no esplendor embora de sua riqueza, porque dele é o reino dos céus.

Bem-aventurado este povo generoso e acolhedor, que ama a paz mais do que as riquezas, porque ele possui a terra.

Bem-aventurado este povo de coração sensível ao amor e às dores do Homem-Deus, às dores e ao amor de seu próximo, porque nisto mesmo encontrará sua consolação.

Bem-aventurado este povo varonil e forte, intrépido e corajoso, faminto e sedento das virtudes heróicas e totais, porque será saciado em seu apetite de santidade e grandeza sobrenatural.

Bem-aventurado este povo misericordioso, porque ele alcançará misericórdia.

Bem-aventurado este povo casto e limpo de coração, bem aventurada a inviolável pureza de suas famílias cristãs, porque verá a Deus.

Bem-aventurado este povo pacífico, de idealismo limpo de jacobismos e racismos, porque será chamado filho de Deus.

Bem-aventurado este povo que leva seu amor à Igreja a ponto de lutar e sofrer por ele, porque dele é o reino dos céus.

Fonte: Discurso na sessão de encerramento no IV Congresso Eucarístico Nacional, 07.09.1942


19 de abril de 2014

A História do mundo: luta inexorável entre os que são da Virgem e os que são da serpente

A impiedade escolheu para Vós, meu Senhor, o pior dos tormentos finais. O pior, sim, pois que é o que faz morrer lentamente, o que produz sofrimentos maiores, o que mais infamava, porque era reservado aos criminosos mais abjetos. Tudo foi aparelhado pelo inferno para Vos fazer sofrer, quer na alma, quer no corpo. Este ódio imenso não contém para mim alguma lição? Ai de mim, que jamais a compreenderei suficientemente se não chegar a ser santo. Entre Vós e o demônio, entre o bem e o mal, entre a verdade e o erro, há um ódio profundo, irreconciliável, eterno. As trevas odeiam a luz, os filhos das trevas odeiam os filhos da luz, a luta entre uns e outros durará até a consumação dos séculos, e jamais haverá paz entre a raça da Mulher e a raça da Serpente... Para que se compreenda a extensão incomensurável, a imensidade deste ódio, contemple-se tudo quanto ele ousou fazer. É o Filho de Deus que aí está, transformado, na frase da Escritura, em um leproso no qual nada existe de são, num ente que se contorce como um verme sob a ação da dor, detestado, abandonado, pregado numa cruz entre dois vulgares ladrões. O Filho de Deus: que grandeza infinita, inimaginável, absoluta, se encerra nestas palavras! Eis, entretanto, o que o ódio ousou contra o Filho de Deus!

E toda a História do mundo, toda a História da Igreja não é senão esta luta inexorável entre os que são de Deus e os que são do demônio, entre os que são da Virgem e os que são da serpente. Luta na qual não há apenas equívoco da inteligência, nem só fraqueza, mas também maldade, maldade deliberada, culpada, pecaminosa, nas hostes angélicas e humanas que seguem a Satanás.

Eis o que precisa ser dito, comentado, lembrado, acentuado, proclamado, e mais uma vez lembrado aos pés da Cruz. Pois que somos tais, e o liberalismo a tal ponto nos desfigurou, que estamos sempre propensos a esquecer este aspecto imprescindível da Paixão.

Conhecia-o bem a Virgem das Virgens, a Mãe de todas as dores, que junto de seu Filho participava da Paixão. Conhecia-o bem o Apóstolo virgem que aos pés da Cruz recebeu Maria como Mãe, e com isto teve o maior legado que jamais foi dado a um homem receber. Porque há certas verdades que Deus reservou para os puros, e nega aos impuros.

Minha Mãe, no momento em que até o bom ladrão mereceu perdão, pedi que Jesus me perdoe toda a cegueira com que tenho considerado a obra das trevas que se trama em redor de mim.

Fonte: Via Sacra, XI Estação, Catolicismo nº 3, março de 1951

17 de abril de 2014

A Igreja, sofredora, perseguida, vilipendiada, aí está a nossos olhos indiferentes ou cruéis

A verdadeira piedade deve impregnar toda a alma humana, e, portanto, também deve despertar e estimular a emoção. Mas a piedade não é só emoção, e nem mesmo é principalmente emoção. A piedade brota da inteligência, seriamente formada por um estudo catequético cuidadoso, por um conhecimento exato de nossa Fé, e, portanto, das verdades que devem reger nossa vida interior. A piedade reside ainda na vontade. Devemos querer seriamente o bem que conhecemos. Não nos basta, por exemplo, saber que Deus é perfeito. Precisamos amar a perfeição de Deus, e, portanto, devemos desejar para nós algo dessa perfeição: é o anseio para a santidade. "Desejar" não significa apenas sentir veleidades vagas e estéreis. Só queremos seriamente algo, quando estamos dispostos a todos os sacrifícios para conseguir o que queremos. Assim, só queremos seriamente nossa santificação e o amor de Deus, quando estamos dispostos a todos os sacrifícios para alcançar esta meta suprema. Sem esta disposição, todo o "querer" não é senão ilusão e mentira. Podemos ter a maior ternura na contemplação das verdades e mistérios da Religião: se daí não tirarmos resoluções sérias, eficazes, de nada valerá nossa piedade.

É o que se deve dizer especialmente nos dias da Paixão de Nosso Senhor. Não nos adianta apenas o acompanhar com ternura os vários episódios da Paixão: isto seria excelente, não porém suficiente. Devemos dar a Nosso Senhor, nestes dias, provas sinceras de nossa devoção e amor.

Estas provas, nós as damos pelo propósito de emendar nossa vida, e de lutar com todas as forças pela Santa Igreja Católica.

A Igreja é o Corpo Místico de Cristo. Quando Nosso Senhor interpelou São Paulo, no caminho de Damasco, perguntou-lhe: "Saulo, Saulo, por que me persegues?". Saulo perseguia a Igreja. Nosso Senhor lhe dizia que era a Ele mesmo que Saulo perseguia.

Se perseguir a Igreja é perseguir a Jesus Cristo, e se hoje também a Igreja é perseguida, hoje Cristo é perseguido. A Paixão de Cristo se repete de algum modo também em nossos dias.

Como se persegue a Igreja? Atentando contra os seus direitos ou trabalhando para dela afastar as almas. Todo o ato pelo qual se afasta da Igreja uma alma é um ato de perseguição a Cristo. Toda a alma é, na Igreja, um membro vivo. Arrancar uma alma à Igreja é arrancar um membro ao Corpo Místico de Cristo. Arrancar uma alma à Igreja é fazer a Nosso Senhor, em certo sentido, o mesmo que a nós nos fariam se nos arrancassem a menina dos olhos.

Se queremos, pois, condoer-nos com a Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo, meditemos sobre o que Ele sofreu na mão dos judeus, mas não nos esqueçamos de tudo quanto ainda hoje se faz para ferir o Divino Coração.

E isto tanto mais quanto Nosso Senhor, durante Sua Paixão, previu tudo quanto se passaria depois. Previu, pois, todos os pecados de todos os tempos, e também os pecados de nossos dias. Ele previu os nossos pecados, e por eles sofreu antecipadamente. Estivemos presentes no Horto como algozes, e como algozes seguimos passo a passo a Paixão até o alto do Gólgota.

Arrependamo-nos, pois, e choremos.

A Igreja, sofredora, perseguida, vilipendiada, aí está a nossos olhos indiferentes ou cruéis. Ela está diante de nós como Cristo diante de Verônica. Condoamo-nos com os padecimentos dela. Com nosso carinho, consolemos a Santa Igreja de tudo quanto Ela sofre. Podemos estar certos de que, com isto, estaremos dando ao próprio Cristo uma consolação idêntica à que Lhe deu Verônica.

Fonte: Reflexões durante a Semana Santa, O Legionário, 30.03.1947

15 de abril de 2014

Missão da Hierarquia no combate ao comunismo: dois princípios básicos

Recordemos dois princípios de importância transcendental:

a ) O comunismo enquanto adversário da Igreja. – Por suas metas, métodos e táticas, o comunismo é uma força internacional que trabalha para a completa destruição da Igreja e do que resta de Civilização Cristã. E o faz tão eficazmente que a destruiria no próprio dia de hoje se não fosse a assistência divina prometida à Igreja imortal. A vigilância e a combatividade de todos os católicos – e portanto também da Hierarquia – se devem empenhar antes de tudo na luta até a final derrota deste adversário.

À Hierarquia eclesiástica toca, pois, ser eminentemente anticomunista, isto é, compete-lhe instruir e formar os fiéis contra o comunismo, denunciando e refutando os erros deste, mostrando-lhes quanto são perniciosos e dignos de execração, e incitando-os a engajar na luta contra o comunismo toda a sua influência, seu tempo e sua dedicação.

Compete igualmente à Hierarquia dar seu mais decidido apoio e estímulo às organizações públicas ou privadas que lutam contra o comunismo, pois são aliadas naturais da Igreja.

b ) O comunismo é também o inimigo máximo de todas as pátrias, pois prega a absorção de todas elas em uma república universal utópica. E também porque a cultura, a ordem política, social e econômica deduzidas da doutrina comunista são diametralmente opostas à verdade. De onde decorre que, na medida em que o comunismo se vai apossando das mentes e influenciando a vida de um país, nesta mesma medida lhe vai aniquilando as forças, perturbando os rumos e desordenando a vida. A experiência dos países dominados pelo comunismo o comprova.

Um êxito da ação comunista em determinado país pode ser mais perigoso para a sobrevivência e a grandeza deste, do que o êxito de algum exército invasor.

A Hierarquia católica tem o grave dever de ajudar com todas as forças o país confiado a seu pastoreio, em caso de agressão estrangeira. Ela o tem a fortiori ante a penetração comunista, doutrinária ou à mão armada.

Fonte: A Igreja ante a escalada da ameaça comunista, 1976, pp. 35-36

20 de março de 2014

Ingenuidade dos católicos que seguiram Hitler e seus propósitos cristianizadores

É preciso, a todo custo, acabar com a funesta ingenuidade de se supor que todo o indivíduo que esboça confusamente um ato de Fé vago e incompleto é, implicitamente, um católico, apostólico, romano digno da maior confiança. Esta mentalidade é muito mais generalizada do que se supõe. Pois não houve na França católicos e - quem o diria! - católicos de certa projeção, que consideraram possível uma colaboração com os comunistas, simplesmente porque estes disfarçaram um pouco seu materialismo sectário e virulento? Não houve, na Alemanha e na Áustria, quem acreditasse nas promessas de Hitler e na sinceridade de seus propósitos construtores e cristianizadores, simplesmente porque o “Führer” falou em Deus em um ou dois discursos imediatamente subsequentes ao Anschluss? É preciso acabar com essa ingenuidade. Quem (...) foi investido de postos de responsabilidade tem obrigação absoluta - insistimos na palavra absoluta, com toda a consciência do que dizemos - de adestrar sua argúcia, de sorte a poder distinguir da ovelha verdadeira, o lobo que se revestiu matreiramente com a pele do carneiro, do contrário, não poderá ser dirigente. (...)

Que valor tem, pois, o dirigente (...) que não tem a perspicácia recomendada pelo Evangelho?

Dissemos que a argúcia é uma necessidade particularmente imperiosa em nosso século. Na realidade, porém, ela foi necessária a todos os séculos, porque o espírito das trevas foi sempre dissimulado e falso, e constituem verdadeiras exceções as épocas históricas em que, como no século [XIX], a impiedade deixou de lado todos os disfarces para se atirar abertamente contra a Santa Igreja. Em geral suas investidas foram disfarçadas e sub-reptícias. O demônio nunca é tão perigoso como quando ele se reveste da aparência dos Anjos fiéis.

Não é outra a razão pela qual a Santa Igreja de Deus foi sempre de uma invencível argúcia em desmascarar as heresias disfarçadas e subtis, e é curioso notar que nessa argúcia pertinaz e combativa ela colocou as mais suaves refulgências de sua santidade. (...)

E, neste século que é o século das grandes heresias sociais, nossa argúcia se deve voltar tenazmente para o campo político, social e econômico, a fim de descobrir ali a ação devastadora dos lobos mascarados em cordeiros.

Fonte: No século das heresias políticas, Legionário, 29.05.1938